O X da questão
Você deve lembrar. Não faz muito tempo. Foi na época em que o Rio de Janeiro se preparava para receber os Jogos Pan-americanos.
Os dirigentes do Comitê Olímpico Brasileiro não cansavam de repetir que organizar um evento como aquele iria nos ensinar muita coisa, e que a partir dali o Brasil estaria credenciado para sediar eventos ainda maiores.
Era tudo verdade.
Graças ao Pan do Rio aprendi muita coisa.
Aprendi, por exemplo, que nada era pensado apenas esportivamente.
Durante uma visita ao então inacabado estádio "João Havelange", os secretários e responsáveis pela obra falavam das futuras lojas e centros comercias do entorno com entusiasmo maior do que o usado para descrever o que viria a ser conhecido como Engenhão.
No estádio de Remo da Lagoa, não bastavam raias traçadas com equipamentos de ponta, importados e caros, era preciso espaço para lojas e restaurantes.
Na Marina da Glória, sede das competições de vela, a mesma coisa.
Nada de se contentar com a estrutura necessária para as provas.
Um Shopping Center e um Centro de Convenções também constavam do projeto.
E quando reclamaram que tudo aquilo iria alterar a paisagem de um lugar tombado, a estratégia da organização foi a mais óbvia: se tudo não fosse feito da maneira proposta o Pan estaria comprometido, e podíamos pagar um mico de proporções planetárias.
Mas o Ministério Público bateu o pé.
Apesar de toda a choradeira e de todos os movimentos de bastidores, o MP venceu a queda de braço. Fez-se o necessário.
E talvez tenha sido essa a vitória relativa ao Pan da qual mais deveríamos nos orgulhar.
Não que tenha sido um triunfo definitivo.
No final de setembro do ano passado, poucos dias antes de o Rio de Janeiro ser anunciado como sede dos Jogos Olímpicos de 2016, o grupo EBX, do empresário Eike Batista, que investiu mais de 23 milhões de reais na candidatura do Rio, o que representa 62% do total, simplesmente comprou a concessão da Marina da Glória.
E foi no jato do empresário que o governador e o prefeito do Rio viajaram para Copenhage, cidade onde o Comitê Olímpico Internacional fez o anúncio.
Na época, perguntado sobre o fato, Eike disse o seguinte: "Tudo foi feito de uma maneira tão transparente, tão aberta, que fica praticamente impossível eu pedir qualquer benefício político".
Na semana que passou, a mineradora MMX, controlada por ele, recebeu um aporte de 1,2 bilhão de reais de um grupo chinês para aliviar as finanças.
O mercado também é um grande jogo.
Daí a deixar que a Marina da Glória, parte integrante de um dos parques mais bonitos do país, o Parque do Flamengo, faça parte dele, são outros quinhentos.
Que me desculpe o Caro leitor, por ter proposto um assunto tão sério quando o carnaval mal terminou.
Mas cedo ou tarde teremos que deixar as fantasias de lado.




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Fifa diz que Morumbi não serve para abertura nem semifinal
Entidade critica novo projeto e rebate São Paulo, que afirmou ter obtido aval para principais jogos
Jamil Chade
O novo projeto do Morumbi ainda não agrada à Fifa e a entidade avisa: ou o São Paulo se prepara para gastar ou não terá a abertura da Copa de 2014 nem quartas de final nem semifinal. O alerta é do secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke. Em declarações ao Estado ontem, ele indicou que seria "lamentável" que a maior cidade do País deixe de receber grandes jogos. "É triste que não haja um entendimento sobre isso."
Na semana passada, representantes do Morumbi estiveram na sede da Fifa e voltaram a apresentar modificações para o projeto que há meses vem sendo discutido. Em São Paulo, os representantes insistiram que a entidade havia dado sinais positivos para as mudanças, indicando que o Morumbi praticamente já estaria apto a receber até uma semifinal, além da abertura. Nada disso foi confirmado pela cúpula da Fifa, que rebateu o clube paulista. "Ou há um compromisso de pôr dinheiro em um projeto ou a maior cidade do Brasil não terá jogos grandes", afirmou Valcke. "Se é privado ou público, não cabe à Fifa decidir."
O secretário-geral foi claro: uma decisão final deverá ser tomada no máximo no início de 2012. Na prática, o São Paulo tem dois anos para chegar a um modelo aceitável pela Fifa. "Do jeito que está não podemos permitir que haja mais que uma partida de oitavas de final. Não há ainda como ter nem um jogo de abertura nem semifinal", prosseguiu. Valcke advertiu que jogar a responsabilidade para a Fifa e a CBF não resolverá o problema. "A decisão sobre onde será a abertura terá de ser tomada em conjunto por todos", declarou.
A Fifa está decidida a não permitir que as obras no Brasil sofram os mesmos atrasos que ainda ocorrem na África. O principal estádio da Copa - o Soccer City, de Soweto - ainda não está pronto e a entidade admite que praticamente não fará testes no local antes do Mundial. "Não podemos dizer que estamos satisfeitos com essa situação", comentou o dirigente.
SÃO PAULO SE DEFENDE
O São Paulo e o comitê organizador paulista reafirmaram ontem que o setor técnico da Fifa - um funcionário chamado Fúlvio teria passado o diagnóstico - definiu que o Morumbi está apto a receber jogos importantes do nível de uma semifinal na Copa de 2014. "A decisão será política, mas seguimos avançando no projeto e, se conseguirmos realizar todas as mudanças previstas, pelo menos já estaremos habilitados a uma partida dessa importância", garantiu o diretor de marketing são-paulino, Adalberto Batista.
A Fifa desmereceu a informação passada por seu funcionário e assegurou que vale o entendimento de seu secretário-geral. E o São Paulo não possui documento para atestar a aptidão do estádio para uma semifinal.
(O Estado de S.Paulo, Esportes, 19/02/2010, p. E-4)
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